quarta-feira, 26 de maio de 2010

"Sai mesmo ao pai..."
"É mesmo parecida com o pai..."
Ouvia-o constantemente em miúda! Sentia um orgulho tão grande, tão "enorme"!
"Pareces mesmo uma índia"!
Talves pelas tranças escuras, pelo moreno, pelas feições.
Sentavas-me no teu colo e ensinavas-me músicas giras, às vezes um pouco estranhas, algumas da tua meninice. Eu aprendia e depois cantarolávamos os dois (nas viagens de carro, nos passeios pela sombrinha, a tua mão enorme a agarrar a minha, enquanto me empurravas no baloiço).
Também me contavas histórias, algumas de História mesmo, outras da tua infância (as tuas preferidas), umas inventadas outras sonhadas...
Sentia-me importante quando me levavas à caça... "shiu, não podes fazer nenhum barulho, está bem?". Mas sabes, detestava a parte em que apanhavas as lebres... tapava sempre os ouvidos e fechava sempre os olhos!
Pareces filha de uma preta, dizias tu e a mãe. Isso sempre me intrigou...às vezes conseguia ficar mais ou menos chateada. Era a cor da pele, o andar sempre descalça, os pés picados por aquelas formigas gigantes, ir para as cubatas comer pirão à mão (hum, que bom que era...)
E aquela "ondulação" de montanha russa, na estrada para Benguela, mesmo à chegada, que percorrias depressa para nos fazer rir e gritar, pelas cócegas que provocava nas barrigas (se calhar só nas nossas) e que voltavas a percorrer, para a frente e para trás,até já ser demais voltar a percorrê-la, porque tínhamos de chegar ao nosso destino.
Lembras-te quando me pegaste e atiraste (sim, literalmente) para o meio da piscina das águas quentes? O único pensamento que me ocorre é este: "Bem, a miúda é maria-rapaz, índia, filha de preta, desenrascada... vai concerteza aprender a nadar".
Hi, hi (sei que se escreve ao contrário, mas eu gosto assim, só para que fique bem claro...nunca o tinha dito, se calhar vocês não sabiam!
O certo é que resultou... virei peixinho dentro de um aquário, do tamanho dos mares e rios e lagos e ...do mundo!
"Paiii, quantos kilómetros faltam?". "Ainda falta muito?". Tínhamos acabado de sair... a pergunta repetia-se por si mesma, de muito pouco em muito pouco tempo...
Tenho tantas saudades das viagens!
"Eu quero aquele gelado que vem no meio de duas bolachas grandes... não é das redondas!". Nunca mais comi gelados tão bons... um dia destes ainda vou descobri-lo novamente e comê-lo com a minha boca de criança...
"Logo parece que vamos ter feijoada"... oh pai, esta eu nunca percebi! Dizias-me quando eu amuava, e amuava ainda mais. Às vezes ficava uma eternidade sem te falar (não sei se horas ou dias, ou apenas minutos)... no final conseguias sempre estragar-me o esquema do amúo e fazer-me rir, mesmo não querendo... ou se calhar querendo mesmo muito.
"Já podes andar na bicicleta do teu irmão... a grande (a mim parecia-me gigante), sem rodas atrás". "Vá, eu empurro e tu começas a pedalar... e olha sempre para a frente"... e não é que resultou!
Também aprendi a fazer descidas vertiginosas naquela bicicleta, mas disso escrevo mais à frente, no capítulo do irmão mais velho.
Pai, vou parar um bocadinho... logo à noite (como em todas) estou contigo, quando olhar para o céu escuro e me piscares o olho daquela tua estrela, a que brilha mais que todas as outras...
Amo-te muito... e saudades! Nunca consigo pensar-te e sentir-te sem que lágrimas não me deslizem pela cara.
Até já...

Este vai ser um cantinho algo confuso, às vezes estranho... saltanto de alma em alma, de coração em coração, voltando atrás às vezes, voltando ao mesmo muitas vezes...

1 comentário:

  1. Onde andavam as tuas reflexões escritas até agora? São fantásticas. Obrigada pela partilha. :-)

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